Ato 1 -
Um Legado de Honra
Um Legado de Honra
Prólogo
Em algumas noites, naquela hora mágica, quando o mundo todo parece coberto por um véu de morte e silêncio, ainda ouço os ecos desse grande caos. E nesses momentos acredito, com uma certeza inabalável, que a existência não surgiu simplesmente do nada - empilhando-se apenas zeros, alguém é capaz de somar um? Do simples caos pode espontaneamente nascer a ordem? Chego então à conclusão de que há alguma força maior, aquilo que impulsionou o nada rumo à existência: algo além de nossa limitada compreensão, que alguns chamam deuses, e revestem de nomes e máscaras e histórias de glórias e vitórias, para se confortar com a ilusão de compreendê-la; enquanto outros, em seu orgulho, fingem não acreditar, pois gostam da idéia de serem deuses eles próprios, sem prestar reverência ou respeito a outrem; e outros ainda, sabiamente admitindo sua própria ignorância, dão de ombros e simplesmente alegam que, conquanto exista essa grande vontade, ela não tem um nome nem um rosto que sejam compreensíveis aos homens.
E então me vem uma pergunta, pois mesmo admitindo sua incapacidade de entender, o ser humano sempre procurou a explicação para todas as coisas, e esta é a origem de todo o conhecimento e sabedoria da humanidade.
O quão superior é essa divindade a nós, homens?
O quão perfeita é?
Até onde ela influencia nossas vidas, e o quanto dessa influência ela exerce intencionalmente, direcionada por sua vontade, e o quanto o faz involuntariamente, compelida por sua própria natureza divina?
E não seríamos nós mesmos miniaturas, fragmentos desse poder e força a que chamamos divinos? Como somos vistos por aquelas criaturas invisíveis de tão ínfimas, o quão mais complexos e profundos? Seríamos nós para elas seres enormes além de sua própria compreensão, que moldam toda a existência que elas conhecem, que influenciam suas vidas, e portanto deuses também? Isso nos tornaria porventura perfeitos? Não erramos para com estes seres que podem ter em nós seus deuses?
Creio eu que sim: até mesmo os deuses cometem erros.
E creio também que alguns desses erros continuarão a reverberar por toda a eternidade.
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Turquia, 334 a.C.
Mas Alexandre Magno, rei da Macedônia, via naquele deserto de cadáveres mais que morte e putrefação: via a glória e a realização de seus sonhos. E foi de glória e sonhos que falou a seus soldados naquela noite, relembrando sua ambição de unificar todo o mundo sob uma única bandeira; e, ébrios de alegria e vinho, os homens cantaram, banquetearam e brindaram à saúde e glória de Alexandre: seu rei, seu general, seu Deus.
Mas mais tarde, quando o canto e a música haviam arrefecido e os corpos bêbados cobriam o salão, a hora do silêncio se fez, e o jovem rei não conseguia dormir; algo dentro de si o inquietava, e nem o vinho nem as escravas o haviam conseguido calar. Um fogo fraco ainda ardia no braseiro, e quando Alexandre o atiçou, uma língua de fogo lambeu a noite, e subitamente ele tomou consciência de sua própria sombra na parede. Por um instante ela lhe pareceu não a silhueta de um homem, mas de uma besta medonha de grandes asas e chifres compridos, e ele imaginou ver dois olhos malévolos, da cor do mesmo sangue que encharcava as dunas da Babilônia. Recuou, aproximando-se do braseiro, e as chamas fustigaram-lhe os cabelos, enquanto os chifres cruéis lhe rasgavam o corpo.
'O caminho que te levou hoje ao trono foi um chão forrado de cadáveres', disse a voz da noite, 'e ainda assim tu zombastes e ristes da dor destes homens, desecrastes seus santuários e tomastes suas mulheres. Atenta e lembra, ó Alexandre, que a mesma força arrasadora que te ergueu aos céus esta noite pode muito bem te jogar de volta ao poço pela manhã.'
E enquanto ele sucumbia ao fogo, um uivo atormentado, mais um grito de fera trespassada de morte que de um homem, ecoou por toda a cidade e o deserto; mas àquela hora apenas os rapinantes ouviram a agonia do rei.
[Esta história é criação de Heleno Vale. Soulspell - visitem, conheçam, colaborem!]