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5.2.11

soulspell

Ato 1 -
Um Legado de Honra


Prólogo

Dizem os mais sábios que nada neste e noutros mundos se dá por acaso. Dizem eles que o próprio universo nasceu de uma colisão entre coisas tão pequenas que mesmo o mais arguto dos olhares é incapaz de enxergar, e que a explosão causada por elas foi tão grande que ainda se reflete em nossas vidas, tantas eras depois; pois nosso mundo é antigo, e a existência mais antiga ainda.
Em algumas noites, naquela hora mágica, quando o mundo todo parece coberto por um véu de morte e silêncio, ainda ouço os ecos desse grande caos. E nesses momentos acredito, com uma certeza inabalável, que a existência não surgiu simplesmente do nada - empilhando-se apenas zeros, alguém é capaz de somar um? Do simples caos pode espontaneamente nascer a ordem? Chego então à conclusão de que há alguma força maior, aquilo que impulsionou o nada rumo à existência: algo além de nossa limitada compreensão, que alguns chamam deuses, e revestem de nomes e máscaras e histórias de glórias e vitórias, para se confortar com a ilusão de compreendê-la; enquanto outros, em seu orgulho, fingem não acreditar, pois gostam da idéia de serem deuses eles próprios, sem prestar reverência ou respeito a outrem; e outros ainda, sabiamente admitindo sua própria ignorância, dão de ombros e simplesmente alegam que, conquanto exista essa grande vontade, ela não tem um nome nem um rosto que sejam compreensíveis aos homens.

E então me vem uma pergunta, pois mesmo admitindo sua incapacidade de entender, o ser humano sempre procurou a explicação para todas as coisas, e esta é a origem de todo o conhecimento e sabedoria da humanidade.

O quão superior é essa divindade a nós, homens?

O quão perfeita é?


Até onde ela influencia nossas vidas, e o quanto dessa influência ela exerce intencionalmente, direcionada por sua vontade, e o quanto o faz involuntariamente, compelida por sua própria natureza divina?


E não seríamos nós mesmos miniaturas, fragmentos desse poder e força a que chamamos divinos? Como somos vistos por aquelas criaturas invisíveis de tão ínfimas, o quão mais complexos e profundos? Seríamos nós para elas seres enormes além de sua própria compreensão, que moldam toda a existência que elas conhecem, que influenciam suas vidas, e portanto deuses também? Isso nos tornaria porventura perfeitos? Não erramos para com estes seres que podem ter em nós seus deuses?


Creio eu que sim: até mesmo os deuses cometem erros.


E creio também que alguns desses erros continuarão a reverberar por toda a eternidade.



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Turquia, 334 a.C.

O sangue tingia de vermelho as areias do deserto até o horizonte, onde as dunas se encontravam com o céu e o sol inclemente. Um cheiro salgado e ferroso subia do mar de corpos, onde aqui e ali um gemido moribundo ou um pedido de misericórdia ainda emergia debilmente, apenas para ser imediatamente calado pelas espadas sangrentas dos guerreiros que buscavam seus companheiros mortos ou itens valiosos. Corvos e abutres sobrevoavam o campo de batalha, ansiosos pelo banquete por vir.

Mas Alexandre Magno, rei da Macedônia, via naquele deserto de cadáveres mais que morte e putrefação: via a glória e a realização de seus sonhos. E foi de glória e sonhos que falou a seus soldados naquela noite, relembrando sua ambição de unificar todo o mundo sob uma única bandeira; e, ébrios de alegria e vinho, os homens cantaram, banquetearam e brindaram à saúde e glória de Alexandre: seu rei, seu general, seu Deus.


Mas mais tarde, quando o canto e a música haviam arrefecido e os corpos bêbados cobriam o salão, a hora do silêncio se fez, e o jovem rei não conseguia dormir; algo dentro de si o inquietava, e nem o vinho nem as escravas o haviam conseguido calar. Um fogo fraco ainda ardia no braseiro, e quando Alexandre o atiçou, uma língua de fogo lambeu a noite, e subitamente ele tomou consciência de sua própria sombra na parede. Por um instante ela lhe pareceu não a silhueta de um homem, mas de uma besta medonha de grandes asas e chifres compridos, e ele imaginou ver dois olhos malévolos, da cor do mesmo sangue que encharcava as dunas da Babilônia. Recuou, aproximando-se do braseiro, e as chamas fustigaram-lhe os cabelos, enquanto os chifres cruéis lhe rasgavam o corpo.


'O caminho que te levou hoje ao trono foi um chão forrado de cadáveres', disse a voz da noite, 'e ainda assim tu zombastes e ristes da dor destes homens, desecrastes seus santuários e tomastes suas mulheres. Atenta e lembra, ó Alexandre, que a mesma força arrasadora que te ergueu aos céus esta noite pode muito bem te jogar de volta ao poço pela manhã.'


E enquanto ele sucumbia ao fogo, um uivo atormentado, mais um grito de fera trespassada de morte que de um homem, ecoou por toda a cidade e o deserto; mas àquela hora apenas os rapinantes ouviram a agonia do rei.









[Esta história é criação de Heleno Vale. Soulspell - visitem, conheçam, colaborem!]