- Há certa coisa que não consegue agradar-me, Sinclair. Lê de novo o relato da Paixão, aprecia-o bem e verás como descobrirás algo que te parecerá insulso. Refiro-me à história dos dois ladrões. O espetáculo das três cruzes erguendo-se juntas sobre a colina é verdadeiramente sublime! Mas em seguida vem aquela história sentimental do Bom Ladrão! Durante toda a vida foi um criminoso, cometeu sabe-se lá quantas infâmias e agora se derrete e chora arrependimento e contrição! Podes dizer-me que sentido existe nesse arrependimento a dois passos do sepulcro? A história não passa de um caso devoto, alambicado e falso, untuosamente comovida e com um fundo edificante. Se tivesses de escolher hoje por amigo a um dos dois ladrões ou meditar sobre qual deles poderia depositar melhor sua confiança, decerto não escolherias, sem dúvida, ao outro, que é um indivíduo de caráter? Desdenha uma conversão que já não pode ter qualquer valor naquele momento, segue seu caminho até o fim e não debanda covardemente, no último instante, do Diabo, que o vinha ajudando até então. Talvez tenha sido também um descendente de Caim. Não achas?