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1.3.11

the account

In the beginning there was only the Darkness. In it nothing existed: neither heat nor cold nor colour nor sound; not even words or ideas, so that Darkness was merely the way the peoples of the World eventually came to call the non-existence before the Light.

For then came forth the Light, and with it came word and thought, and it was like a small and single star; and from it was born the World as it separated itself from the Darkness.

At first the World was little more than sparse feelings and ideas, like vague threads of a distant conscience, floating languidly towards existence. Slowly, gradually, though, they grew and amassed and formed senses and findings.

From them was born that which would be called the Wood of a Thousand Lights, and called the very cradle of the World. Its trees had trunks made of aroma and touch, and their leaves were music; the grass was weaved from senses, and the wind full of colours and ideas. From a great clearing in its middle sprung forth the Road of the Sun, where the Light rose. The Road coursed away from the Wood, and cut through the Meadows of Moonlight. Across the Meadows the Great Cave harboured remnants of the Darkness; in its almost unimaginable depths beauty and wonder unknown remained asleep - for there were no tales of those who had entered them and returned to the Light.

Beyond the Meadows and the Road, there was then the village, and its name was Goldfair. Its roofs were of golden straw, its streets of grey cobblestone, and the villagers held many festivals with music and dancing, and planted and herded with smiles in their faces. On the other side of the great River and its clear, cold waters, the town twin to Goldfair was covered in smoke, and its name was in a monstruous, feral tongue; for the streets were crowded with noisy, stupid man-eating beasts, and flanked by menacing buildings so tall that forbade any sight of the dull skies. Neither villager nor monster, though, dared cross the high bridge over the River; and therefore, despite being deadly enemies, there was no war.

In that time the Prince still lived in the World, and reigned with justice and dignity and kindness. He was the lord of all lands, and every creature, big or small, powerful or weak, good or evil, paid him due respect. All knew him; under his orders war and conflict ended readily, and the World beheld only peace and beauty. He lived in a citadel on the top of a high mountain, whose name (in a once noble and long forgotten language) was Silverhorn; there every building was carved in stone as white as snow, and embroidered banners waved in the gentle wind, and it was said to be the most beautiful place of all. Music flowed through the streets; the scent of incense and fresh leaves floated in the air. Guards with polished spears and swords garnished the royal palace where the Prince resided with his servants. At the foot of the mountain, green valleys and rivers laden with fish were the lair of a prosperous people, whose houses were built upon great boats on the water. The prairies beyond the valleys belonged to the horsemen tribe, and their steeds ran in large herds over the plains. To the north and to the east the Black Forest spread its shadows and milenary cypress and fir trees, and in its starlit glades fairies and elves held magic rites in honor of ancient deities. Beyond the Forest there was the Desert of Amber, where mighty sultans lived in majestic palaces by the oases, and the dancer serpents would gather to celebrate sabbaths under the moonlight.

The World was beautiful, young and peaceful then, and the rule of the Prince was good.

But then came the Beast, and she had eyes of fire and blood framed in black, and her fearsome bellow was the screams of a thousand tortured souls in their misery and fury. Where she cleaved the earth to surface to the World was called the Pit, and round it appeared ghost-cities: the thirteen Black Stars, inhabited by dark shadows and whispers, blood and sex. Like a great storm the Beast ravaged the World, destroying and distorting everything in her way. In the middle of the Rocky Lowlands she erected her huge Tower of Bones with the remains of her victims, and then slept under it, disappearing again under the earth.

The reign of the Beast, even having brought shadow and dusk to the World once so pure, was however brief, and those who lived in the Stars, in their frenzied, crazied rage, loved their lair and their great Goddess. Still in darkness and horror persisted some dreary grace, and there were lives and secrets in the night that could never exist under the sunlight.

But then the Howling appeared.

No one could say where it came from. But it arose, at first so small that its presence could barely be noticed - or its non-presence. Because the Howling could not be, since it would be the very opposite of the Light that had created the World and being itself. In the Howling the Emperor dwelled, in his castle centered in the middle of a pallid, colourless city, sitting in his grey flint throne. There was there an air of permanent and diseased strangeness, of misconception; nothing lived or moved in the empty houses - hollow, perhaps -, nor between them, and the senses of direction, size and distance were queer, oddly fluid. The only thing able to be in the Howling, apart from the Emperor himself, was the unceasing moans of malignant, unhealthy winds. The few that entered their dominion never returned; it was said that they were consumed by the Howling, turned into the Howling themselves. And terror held the World in its icy grasp.

But while the Emperor exists the Prince will never come back. And, without its Prince, all the World is slowly ceasing to be...

31.1.11

janeiro

O concerto caótico de buzinas e palavreados e luzes piscantes era um espetáculo à parte, quase impossivelmente enfiado por todos os lados e cantos imagináveis do drive-thru – e a imaginação de Amélia era bastante abrangente e flexível em termos de propriedades físicas do espaço.

Impassível como de costume, o sorriso padronizado convenientemente congelado no rosto, ela teclava na tela do computador engordurado os pedidos eventuais de homens carecas, gordos e feios, saídos famintos e irritadiços das horas extras no escritório. Um número três, batata média, guaraná grande, computou, automática; dado o horário ingrato do turno da madrugada e o pagamento pífio, trabalhar ali equivalia perfeitamente a se postar na esquina com roupas curtas e fazer gestos significativos com uma bolsa de mão, pensou vagamente, fitando estupidamente a linda foto de um hambúrguer. E, com uma certa inveja indiferente, constatou que provavelmente ganharia menos e com menos prazer que na lanchonete, já que aqueles mesmos clientes carecas, gordos e velhos dificilmente pagariam por sua companhia; afinal, esperavam gastar dinheiro com moças bonitas e agradáveis, o que não se podia falar dela. Não que Amélia fosse particularmente feia, ou qualquer coisa em particular, de fato; talvez um pouco magra demais, sim, e um pouco sardenta demais, e um pouco ortodonticamente aparelhada demais. Mas não, assim, feia como diriam as velhas vizinhas, condescendentemente, embora todas elas concordassem que sua presença não era exatamente agradável.

O computador acusou o final do turno, e ela fechou o caixa com a costumeira, medida ineficiência; depois de se trocar e deixar para trás seu ego sorridente sem sobrenome, passou de cabeça baixa pelos tagarelas colegas e suas conversas vazias, predeterminadas por emissoras de televisão (até mais, até amanhã), e parou por fim no ponto de ônibus duas quadras abaixo. Como que cuidadosamente cronometrado, ele chegou logo, quase vazio, barulhento: um monstro resfolegante de entranhas luminosas. O motorista fechou a porta automática atrás dela, sem encará-la, sem mal notá-la; o cobrador entregou o troco, mecanicamente, mais atento à cidade silenciosa através da janela. Era a hora morta, e as ruas estavam vazias de pessoas, de luzes, mesmo de vento. Amélia pegou-se imaginando como seria uma hora viva, se ela existisse; mesmo no restante do dia, a cidade sempre tinha aquela aura cinzenta, demasiado estável, feito uma estátua de pedra ou um bloco de concreto.

Eram passados bons três quartos de hora quando o carro chegou ao ponto certo, um poste de madeira fincado no chão, do qual a cor fora lavada pelas chuvas e fustigada pelo sol muito tempo atrás. Puxou a cordinha, comprazendo-se brevemente no apito agudo (uma violação da natureza daquela hora, lhe parecia, e lhe lembrava a primeira nota de uma música da qual um dia gostara), e saltou sem olhar para trás. Recebeu com gosto o ar frio da madrugada no rosto e nas mãos, e ampliou a sensação ainda mais, caminhando apressadamente com passos leves, quase correndo em direção ao prédio acinzentado no outro quarteirão. Sacou as chaves, que tilintaram como pequenos sinos, e abriu o portão semienferrujado, coberto de restos de papel; dobrou à direita para alcançar as escadas, já escuras àquela altura da madrugada, e galgou os degraus de dois em dois, assobiando internamente pedaços de cantigas de infância.

Quinto andar, segunda porta à esquerda, cantarolou por dentro numa rima desconexa, e enfiou a chave na fechadura. Lá dentro, a casa respondeu ao clique da tranca com uma sinfonia de cores, cheiros, sons: a luz alaranjada da rua, entrando pelas cortinas puxadas, lembrava um crepúsculo à beira-mar, e mesmo o ar parecia cheio de sal e canto de gaivotas. Ela deixou as chaves mágicas cada uma pertencente ao tesouro de um dragão sobre a mesinha, num tilintar de prata e gelo; e dançou uma dança leve de fadas e princesas sobre o tapete verde e infinito, os talos de relva tão macios, tão frescos, roçando suas pernas nuas até o joelho, onde começava a saia rodada de seda e renda. Além dos prados, erguia-se a floresta, e a fera espreitava para levá-la à grande nave que a levaria para ver as estrelas de perto, e o outro lado da galáxia mas isso seria depois, bem depois, quando ela estivesse pronta.

Era já tarde na manhã quando acordou, um gosto estranho na boca, o cheiro rançoso e úmido de louça por lavar pairando no ar. Levantou-se, um dos pés ainda calçado, caçou o outro pé sob a cama, pegou a garrafa caída no chão. Pelas cortinas entreabertas vazava um pouco de sol; era quente, quase agradável, e Amélia se demorou ali um pouco, sentada na cama, a mente vazia. Tinha uma vaga sensação de que deveria ter algum desejo, alguma vontade, alguma urgência de agir; mas não à toa a inércia era justo a primeira lei de Newton. Havia um certo sentido.

A custo ergueu-se e rumou a passos lentos para o banheiro adjacente; ignorou solenemente o estado do piso e das paredes, e tomou a escova de dentes. O espelho diante da pia havia se decomposto em pequenos cacos brilhantes havia muito tempo Amélia tinha uma longa lista de pecados, é verdade, mas vaidade não figurava entre eles. Terminou de escovar os dentes, lavou distraidamente o rosto, e caminhou até a sala. O papel de parede descolorido, soltando-se em grandes rolos, parecia abrir um esgar distorcido, paródia monstruosa de sorriso, em conjunção com o estofado rasgado e gasto do sofá, como um grande rosto velho, enrugado, desdentado.

Outras moças de sua idade passeavam lá embaixo, na rua diante do condomínio, e suas vozes lembravam vagamente o canto de passarinhos, como Amélia havia ouvido numa tarde longínqua na casa de seu avô. A lembrança tinha um sabor de laranjas, um cheiro bom de bolos e perfume barato, e a visão de rostos queridos; e ela se flagrou pedindo a Deus que sua família estivesse bem, onde quer que tivesse ido parar depois do barranco, dos gritos, e do rio. O carro havia feito uma manobra maravilhosa – três capotagens em seqüência, um mergulho no rio – que, no momento, ela achara tão fascinante, apesar do terror.

Piscou.

Sempre conseguia imaginar histórias por trás das coisas, enxergar cores onde não havia, imbuir qualquer objeto ou pessoa de graça e encanto. Se por fora era mais cinzenta que o asfalto esburacado, por dentro havia um mundo de mágicas e maravilhas secretas.

Mas, diante dos corpos estendidos em macas metálicas, bizarras imitações geladas e brancas de mamãe e papai etiquetadas como bonecos numa prateleira, Amélia fora incapaz de encontrar maravilhas escondidas; a dor fora tão grande que nublara seus sentidos, e ela não saberia dizer se estava chorando ou gritando – e, de repente, até mesmo por que. E até hoje não havia redescoberto.

O vento mudou de direção, entrando agora pelo pseudo-quintal, e o cheiro azedo da cozinha voltou a incomodar. Amélia inclinou a cabeça para o lado, os lábios entreabertos, não-pensativa. Novamente aquela vaga sensação de urgência, tão incômoda, cada vez mais. Sabia que deveria sair com falsas amigas, passear, fazer compras, cuidar da casa, conversar com os vizinhos sobre assuntos convenientemente inócuos; sabia que deveria fazer tudo aquilo que todos os outros faziam. Mas não tinha mais ninguém a quem agradar, ninguém a quem se explicar, e o mundo lhe parecia bom o suficiente como estava, obrigada.

Piscou.

O gosto ainda perdurava: doce, cítrico, com um gosto de fruta roubada e o chupar de bagaços nos galhos das mangueiras. A brisa carregada de rio, grama, fubá e leite fresco; o sol quente, dourado, tão delicioso quando impiedoso; as nuvens como grandes chumaços de algodão-doce –

No apartamento vizinho, um piano, uma voz como um sopro de vento –

ela era uma menina de Janeiro, dizia ela, e Amélia riu, e seu semblante se iluminou. Sim, seu vestido era o azul, aquele que ela uma vez dera a outra princesa de um reino distante, mas era ele mesmo; seus pés descalços sentiam a relva macia nas pontas dos dedos, e ela levantou-se do coche de veludo e cetim. Ao longe, na floresta, as luzes dos elfos eram como um farol suave, qual pequenos sóis ou estrelas postas entre as árvores. Deixou então a casa pequena, sombreada e fresca: como deveriam ser as grutas escondidas sob a terra, onde jóias mais antigas que o mundo contavam histórias preciosas. E dançou, e correu, e flutuou sobre as planícies.

Aqui e ali, as velhas vizinhas faziam entre si comentários pouco lisonjeiros, e mencionavam quartos feitos de almofadas brancas e camisas brancas de longas mangas e poções malignas para destruir sua magia. Mas Amélia não se importava com bruxas, e lhes sorria e fazia mesuras elegantes – como toda digna donzela, é claro; mesmo que elas resmungassem ainda mais, recolhendo-se novamente a seus casebres bruxescos.

O chamado: ah, ele vinha, e mais forte a cada dia. A fera aguardava, paciente, e além das árvores a nave estava preparada, e o metal vindo de outros mundos brilhava estranhamente –

– mas o ônibus roncou e arrancou, deixando para trás uma nuvem quente que a fez engasgar e tossir, e as moças no ponto riram suas risadinhas pretensiosas, no alto de seus saltos finos, os coques lustrosos. Era um calor tão diferente do aconchego de sua cama, de um colo, mesmo o toque do sol; era algo quente apesar de morto ou morto apesar de quente?, argumentou consigo para isolar os olhares desdenhosos, apertando os lábios e apressando o passo de volta à relativa segurança de atrás do portão. Subiu novamente as escadas, sentindo os degraus de concreto gasto machucarem seus pés nus, e passou tão rápido quanto pôde pelas velhas que se reuniam junto às portas, murmurando coisas desagradáveis com suas vozes grasnidas.

Bateu a porta atrás de si, sentindo a garganta se apertar numa reação estranha, há bastante esquecida; afinal, mesmo que tivesse se consolado com mentiras e as tornado enfim suas verdades, nunca conseguira superar o escárnio, o desprezo; pareciam varar suas realidades como setas contra papel. Escorregou pela parede, o desespero correndo morno pelo rosto, espalhando-se pelas mangas conforme se encolhia, o corpo todo sacudido pelos soluços. Tentou, em vão, ver que as lágrimas eram em verdade pérolas raras, e sentir o toque do sopro da primavera nos cabelos; mas laranjas, mangueiras e perfumes genéricos teimavam em lhe passar pelas lembranças, como fotos desbotadas de um passado tão distante que mal ainda existia – zombando, apontando, rindo-se, indo embora.

Piscou; lágrimas escorreram; e ela viu claramente, como se tivessem lavado seus olhos e posto diante deles um filme de quase sépia.

Ela fora inocente. Como poderia saber? O carro, grande, vermelho, era como um grande parque de diversões; tantas alavancas, tantos botões, qual os controles coloridos de uma nave espacial daquelas que via no cinema, e ela sonhava em ser a capitã de uma delas. Seu irmão seria o piloto, disse, e riu.

Fora a última risada que compartilharam desde então.

Amélia afundou o rosto nos braços, e chorou.

Oh, pomba negra, pomba negra

– Mas as luzes eram então tão coloridas, brilhantes – de perto eram como grandes fogos, pensou ela, a mão dada à da fera, pisando atrás dela as folhas macias e quebradiças do chão da mata. Grandes laranjas suculentas, maduras, redondas, pendiam dos galhos grossos e convidativos; aqui e ali flores violentamente cor-de-rosa, as pétalas finas e desfiadas como se feitas de chita, exalavam perfumes pouco florais. A clareira se aproximava, e o sol dourado se infiltrava pelas copas verdes, perfeitas em sua irregularidade cuidadosamente planejada; o cetim azul do vestido farfalhava com a brisa fresca, primaveril.

A ponte da nave baixou até o chão gramado, suave, silenciosa, como em toda boa nave; e Amélia beijou o rosto da fera – que um dia seria um príncipe, disse com um último sussurro – e subiu. Os degraus eram frios, lisos, de uma qualidade estranha e íngreme; mas eram gentis com os pés descobertos, e a ascensão foi fácil. Igualmente fácil foi a viagem, rápida, suave, sem trepidações ou turbulências; e logo ela viu pela escotilha a grande estrela se aproximando, de cores mais vívidas até do que se poderia imaginar – e a imaginação de Amélia era bastante abrangente e flexível em termos de possibilidades de divisão da luz.

Lá, eles esperavam, sorridentes, os braços abertos: a cama estava feita, o almoço posto, e ela era a última a finalmente chegar, disse a mãe, envolvendo-a num abraço confortavelmente quente. Caloroso, enfim.

Eles não sabem que você já vivia / do outro lado da galáxia –

– O ônibus freou subitamente, cantando os pneus; os carros atrás dele, em fila única na rua estreita, frearam também, e uma saraivada de buzinas e impropérios feriu a senão plácida tarde de Janeiro.

Leve surpresa no rosto, num ângulo impossível – ou não – junto à sarjeta, Amélia sorria ainda.